Tuesday, May 29, 2012

KREATOR - «PHANTOM ANTICHRIST»

Enquanto estava a preparar esta review reparei que «Violent Revolution», «Enemy of God», «Hordes of Chaos» e «Phantom Antichrist» foram gravados nos últimos onze anos, facto que ajudou ao texto que escrevo de seguida. Quando o single «Phantom Antichrist» foi lançado, a minha reação foi positiva, apesar do tema não ser de qualquer forma, nada de excepcional. Digamos que os singles dos últimos três álbuns agradaram-me mil vezes mais. O mote estava dado para uma apreciação a receio. Passando pelo inofensivo «Mars Mantra» e pelo tema título, «Death to the World» anuncia uns Kreator agressivos q.b., mais uma agressividade que soa cansada e sem feeling nenhum. «From Flood Into Fire» trás Mille Petrozza a cantar num registo limpo próximo do utilizado no «Endorama» e com um refrão próximo daquilo que os Machine Head andaram a fazer em «The Blackening» e «Unto the Locust». Para a frente, acentua-se a noção de que «Phantom Antichrist» é disco em que reconhecemos os Kreator como monstros do thrash germânico, como na já tradicional colagem a Slayer em «Civilization Collapse» e «United in Hate» (a minha preferida), apesar da melodia acentuada principalmente nos refrões antémicos que os Kreator teimaram em usar neste disco. Ao contrário do que o título poderia fazer esperar, este é o disco menos agressivo dos Kreator desde da fase «Outcast»/«Endorama». Talvez seja a idade, talvez seja a vontade de se destacarem da invasão new-thrash que por aí anda, o que é facto é que, apesar do disco não ser mau de todo, é claramente o menos conseguido desde do return to form em 2001 com «Violent Revolution». 7/10

GRAND MAGUS - «THE HUNT»


Depois de dois álbuns brilhantes, «Iron Will» e «Hammer of the North», e consequente ascensão a um lugar de destaque na cena actual, os suecos Grand Magus são agora testados ao sucesso alcançado com «The Hunt», um álbum bastante personalizado, dentro da sonoridade rockeira que os tem caracterizado. Privilegiam sempre uma boa canção em detrimento do peso desmedido o que faz com que os seus álbuns sejam verdadeiros compêndios de hinos épicos com refrões gloriosos. Em «The Hunt», «Starlight Slaughter» e «Sword of the Ocean» são duas malhas bem ao jeito dos Grand Magus, a invocar um espírito 70's. Apesar de ter reservas em falar de retro neste disco, não há dúvida que a abordagem dos Grand Magus à sua música tem o seu quê de retro, mais não seja pela perspectiva "less is more" que acompanha temas como «Stormking» e  «Silver Moon», isto é, não precisam de grandes técnicas ou malabarismos para esgalhar uma excelente música. O factor menos positivo será que «The Hunt» é menos orelhudo que «Hammer of the North» e globalmente mais disperso. Por exemplo, se no disco de 2010 ao quarto tema já estava totalmente rendido à banda, em «The Hunt» só fico convencido ao fim de algumas audições e não da mesma forma. Menos arrebatador, mas igualmente bom, «The Hunt» é um digno sucessor de «Hammer of the North». Uma especial menção para «Son of the Last Breath», sem dúvida uma surpreendente malha semi-acústica que os Grand Magus compuseram e um dos pontos altos de «The Hunt». 7,5/10

DIABLO SWING ORCHESTRA - «PANDORA'S PIÑATA»


Já em 2009 havia demonstrado a minha surpresa relativamente aos Diablo Swing Orchestra, banda eclética capaz de misturar a música folclórica mais bimba com metal pesadão com guturais. Mas apesar desta aparente anarquia musical, a verdade é que o grupo teve em «Sing Along Songs for the Damned and Delirious» momentos de génio que me levaram a dar quase a nota máxima, das mais altas que tive o prazer de dar aqui no EH. «Pandora's Piñata» chega aqui ao meu "escritório" rodeado de uma expectativa considerável e a primeira impressão ultrapassou as melhores previsões. Mais despidos de gorduras e alegorias, «Pandora's Piñata» vai directo ao assunto e é por isso mais efetivo e imediato que o anterior, que no meio de tanta extravagância, tornava-se ao fim de algum tempo (perdido o efeito surpresa) algo maçador. Aqui somos brindados com canções mais down to business sem perderem aquela aura pitoresca ou carnavalesca, muito própria dos DSO. Exemplos não faltam, desde «Guerilla Laments» com o seu belissimo refrão, a cadência humorística de «Black Box Messiah», a ligação com «Sing Along Songs for the Damned and Delirious» em «Voodoo Mon Amour» até as mais modernaças «Kevlar Sweethearts» e «Exit Strategy of a Wrecking Ball», os DSO conseguem manter os níveis de interesse e qualidade muito acima da média durante os 11 temas que prefazem «Pandora's Piñata», de onde não posso deixar de destacar as excelentes «Aurora» (onde a vocalista Annlouice Loegdlund tem uma prestação de encher o olho) e a oriental e exótica «Mass Rapture». Um álbum notável, uma vez mais. 9/10

SHADOWS FALL - «FIRE FROM THE SKY»

Recordo-me perfeitamente quando os Shadows Fall começaram a dar que falar ali em finais da década de 90, ao mesmo tempo que grupos como Killswitch Engage e Trivium se destacavam da medíocre cena nu-metal e davam ao mundo do metal um novo trend que se viria a chamar de metalcore. A verdade é que este trio manteve-se até hoje à tona por mérito próprio e a julgar por este «Fire From the Sky», os Shadows Fall continuam tão raivosos como antes. A mistura de vocais gritados e melódicos, típicos desta sonoridade, ganham uma expressão de outro calibre quando falamos deste grupo e é sempre um prazer ouvir malhões como «Divide and Conquer» e «Weight of the World», onde essa dicotomia vocal antige os píncaros do bom gosto. Ser pesadão, com grandes riffs e soar melódico ao mesmo tempo não é para todos, mas «Fire From the Sky» está repleto dessa arte. Se «Retribution» devolvia aos Shadows Fall a capacidade de comporem grandes malhas como no início de carreira, este novo álbum trás de volta não só esse factor (o tema «Fire From the Sky» é catchy até ao osso) como acresce em termos de peso («The Wasteland» é brutal). Um dos melhores lançamentos dos Shadows Fall até à data. 8/10

SONATA ARCTICA - «STONES GROW HER NAME»

A Finlândia sempre foi um país propício para o power metal melódico, pelo que de tempos em tempos, ainda somos surpreendidos por uma banda oriunda desse país frio e dos mil-lagos. Os Sonata Arctica foram um desses conjuntos a aparecerem de rompante e a fazer de imediato uma legião de fãs. Contudo, os últimos álbuns do grupos parecem vir a perder fulgor, culminando num «The Days of Grays» morno, sem a frescura e a energia dos primeiros discos. «Stones Grow Her Name» demonstra que os Sonata Arctica começam a fugir cada vez mais ao rótulo power metal, abraçando uma sonoridade moderna ideal para festivais de verão, com temas mais rockeiros, como é o caso de «Shitload of Money». Apesar disso podemos contar com músicas soberbas como «Losing my Insanity» e «I Have a Right», onde as melodias e as linhas vocais são fantásticas. Aliás, se há aspecto em que este disco é bom, é por todas as músicas serem possíveis singles, facto que diz muito de «Stones Grow Her Name». Oiçam a enorme «The Day» para verem materializado todo o potencial dos Sonata Arctica quando estão inspirados. Bastante melhor do que «The Days of Grays», neste álbum os Sonata Arctica abraçam o desejo de expandirem horizontes se perderem um pingo de qualidade e pertinência. Um grande álbum de metal melódico. 8/10

FIREWIND - «FEW AGAINST MANY»

Foi a partir de «Allegiance» que os Firewind começaram a dar nas vistas, tendo em «The Premonition» demonstrado todo o seu potencial em escrever canções de heavy metal clássico como poucos. «Days of Defiance» veio arrefecer um bocadinho a ascensão sonora do grupo que paralelamente, à custa de Gus G e da sua ida para a banda de Ozzy Osbourne, começava a dar ares de super-banda. «Few Against Many» vem incrementar não só esta impressão como também o nível de peso da sonoridade do grupo. De facto, o grande problema deste disco é muitas das músicas aqui contidas terem esteróides a mais, desnecessariamente. Por exemplo, o tema título ficaria bem melhor despido da distorção musculada que o acompanha e o tempo rápido de «Another Dimension», que mais parece uma música de Soilwork, não servem da melhor maneira os intentos dos Firewind. Felizmente não se perdeu tudo, já que músicas como «Glorious», «Wall of Sound» e «The Undying Fire» valem ainda uma audição mais atenta a este álbum, que apesar disso, pauta por ser o disco menos conseguido dos Firewind desde do «Allegiance». 6,8/10

Thursday, May 24, 2012

BURZUM - «UMSKIPTAR»

Vamos primeiro aos factos: este é o terceiro álbum de Burzum em três anos desde que Varg Vikernes cumpriu a sua sentença. Esta produtividade não deverá espantar ninguém pois estamos a falar de um músico que lançou entre 1992  e 1999, seis álbuns de originais, fora um EP, uma compilação e um VHS. Novamente gravado nos estúdios Griegahallen, em Bergen na Noruega, este 9º álbum de Burzum, «Umskiptar» ("metamorfoses" em norueguês) é um álbum apoiado integralmente no poema mitológico Voluspâ, onde se conta a criação do mundo e o seu final. Talvez daí tenha surgido uma sonoridade mais cadenciada e doomy para estes temas, a fazer relembrar aquele magistral primeiro tema da versão germânica do «Filosofem» (1996). Oiçam «Alfadanz» (Elven Dance) e vejam se não notam algumas aproximações. Com um artwork a apresentar a pintura de Peter Nicolai Arbo, onde a noite é personificada através da deusa Nótt, «Umskiptar» é um disco que pouco tem a ver com «Belus» (um disco de libertação) ou com «Fallen» (uma álbum de transição). É mais uma declaração de independência relativamente ao rótulo black metal, que aqui não pode ser utilizado, a não ser para falar do passado. A esfera de alcance de «Umskiptar» fica entre o folk e o doom, sugerindo que para Varg o que lhe interessa será mais afirmar a sua liberdade criativa e neste sentido, «Umskiptar» é disco virado para dentro, sem querer minimamente saber o que as pessoas pensam dele. Não é assim que supostamente deveriam ser todos aqueles que se auto-denominam de artistas?

PIGS - «YOU RUIN EVERYTHING»

«You Ruin Everything» é o álbum de estreia dos Pigs, banda de Brooklyn que conta com membros dos Freshkills, Players Club, Unsane e Slughog nas suas fileiras. A música aqui contida fica bem representada pela capa decadente que faz adivinhar uma sonoridade suja e raivosa. De facto a vontade que dá depois de ouvir este disco é de dar um tiro nos cornos ou de fazer o que Michael Douglas faz no filme «Falling Down» (Um Dia de Raiva) de 1993. Entre o sludge e o noise rock, é possível discernir também a importância que o grunge tem nestas músicas. Nomeadamente  Faith no More e Soundgarden, mas também as canções mais agressivas dos Nirvana, oiçam «Contrition Dilemma». «Massive Operator Error» faz lembrar aquilo que os FNM andavam a fazer no «The Real Thing», rock sujo com groove e hooks de encher os ouvidos. Já «Drained» simboliza nos seus curtos 2:33 minutos toda a aura decadente proveniente de uns Eyehategod. «Outburst Calendar» aproxima os Pigs de uma sonoridade pós-rock com uma melodia brilhante e «Give It» (o single) é daqueles instant grabbers que preconiza um hino sludge como poucos. Variado e extremamente bem composto, músicas memoráveis e uma atmosfera contagiante, «You Ruin Everything» faz acreditar que está aqui uma banda com enorme potencial e grande futuro, apesar de não serem propriamente novatos nestas coisas. 8/10

Wednesday, May 16, 2012

SAINT VITUS - «LILLIE: F-65»

Abordar um álbum que simboliza o regresso de uma banda como os Saint Vitus que gravaram o último de originais em 1995, «Die Healing», revela necessidade de alguma prudência. Não queria de alguma fora ser injusto ou demasiado entusiasmado, para mais tarde arrepender-me do que escrevi. Igualmente por ter imediatamente percebido que as canções de «Lillie: F-65» terem bem mais para compreender do que simplesmente ouvi-las à luz do "regresso dos Saint Vitus". Por esta razão, resolvi conscientemente esperar umas semanas (tenho-o desde meados de Abril) para escrever esta review. Conviver diariamente com este álbum trouxe-me uma perspectiva diferente daquela que as primeiras audições revelaram. Numa primeira impressão, pareceu-me que Dave Chandler propôs-se a manter intacta a identidade do grupo, apenas polindo ligeiramente a sonoridade das guitarras, mas nunca perdendo aquele efeito maníaco-depressivo que caracteriza o clássico «Born Too Late». Apesar disso, a composição de «Lillie: F-65» soa despida e com o passar do tempo, inconsequente. Inconsequência patente no segundo tema «The Bleeding Ground» que mais parece um tema gravado por um drogado a ressacar, que se lembra de repente que até tem LSD (ou um derivado) guardado algures, sendo o solo esquizofrénico do final da canção a parte em que o agarrado sai à rua e vê elefantes cor-de-rosa. «Lillie: F-65» parece em última instância um amontoar de riffs, uns mais nostálgicos que outros, sendo esta nostalgia o principal motor para gostarmos deles. Pelo menos durante algum, depois é ir buscar o «Born Too Late» e perceber as (grandes) diferenças de qualidade. 6/10


SCARTOGRAPHER - «HORIZON»

Passemos ao álbum que mais me surpreendeu nos últimos tempos: «Horizon» dos Scartographer. Disse "dos" por concordância linguística, porque trata-se de uma one man band em que Tyler Blair é responsável por tudo o que se pode aqui ouvir, inclusivamente pela produção, masterização e até pelo artwork. A melhor forma de vos pôr em contacto com este projecto é usar a expressão prog djent instrumental. Bem sei que estas coisas juntas soam assim para o esquisito, mas a mania jornalística de atribuir rótulos é difícil de ignorar, ainda mais quando se tenta falar de uma banda praticamente desconhecida....
De cariz primordialmente instrumental e progressiva, a figura do djent aparece pelas referências óbvias que existem em «Horizon» e que remetem para bandas como Tesseract e Meshuggah. Na página da Bandcamp, Tyler coloca nos tags os Periphey, embora eu creia que se referia apenas às partes melódicas, uma vez que aquele caos (no mau sentido) sonoro da banda que abriu o concerto de Dream Theater no Coliseu fica a milhas dos Scartographer. Neste disco gostei da forma como Tyler consegue compôr músicas que soam simultaneamente intrincadas e com uma atmosfera spacy e psicadélica que sabem extremamente bem ouvir. Os melhores exemplos surgem sensivelmente a meio do disco com a feel good song «Noah» e com a imensa «Drifts» (o início é deixar qualquer um preso à cadeira). Estas músicas conseguem juntar a sonoridade delicodoce de uns Red Sparowes e God is an Astronaut e por vias do tal djent, a intensidade dos Meshuggah e Tesseract. O que falta então aos Scartographer? Maior amplitude musical, talvez. Gostaria de ouvir um ou outro tema mais épico, porventura mais passagens atmosféricas (as músicas de «Horizon» parece que têm pressa de acabar!) e porque não, samples e electrónica q.b. fariam aqui todo o sentido. Um verdadeiro achado que tenho a certeza que será do vosso agrado. A seguir com muita atenção. 8/10

CRYSTAL VIPER - «CRIMEN EXCEPTA»

Havendo receptividade por parte dos metaleiros em ouvir bandas que recriam os anos 80, as editoras começam a caça ao revivalismo e, mesmo que os Crystal Viper tenham surgido em 2003 (gravaram o primeiro disco em 2007), pertencem claramente a este movimento. Ainda que o metal clássico que os Crystal Viper toquem seja de uma estirpe superior ao vulgar "vamos sacar riffs a bandas antigas", assemelhando-se por exemplo aos norte-americanos Cage. Polacos de origem (o que constitui surpresa redrobrada) a banda vai a bandas da NWOBHM buscar 70% da sua música salpicando-a com metal americano, nomeadamente aos WASP, Omen, Brocas Helm, Slough Feg e Manilla Road. Tudo boas referências que se materializam em grandiosas malhas como «It's Your Omen», «Witch' Mark» e «The Spell of Death», todas com fundações em Iron Maiden, com refrões gloriosos e riffs triunfantes. É verdade que não trazem  absolutamente nada de novo, mas que dá gosto ouvir, isso é indesmentível. 7,8/10

DREAMSCAPE - «EVERLIGHT»

Quando falamos de metal progressivo, serão poucas as pessoas que trarão os Dreamscape à baila. Talvez por serem alemães, um país pouco dado a esta sonoridade, ou simplesmente porque nunca mostraram argumentos suficientes para disputarem pelo menos a liga de honra do seu campeonato. Não obstante, pegando na discografia ou saltando por faixas random no YouTube é fácil perceber que o que falta a esta banda é uma editora de maior porte. O grupo consegue de forma consistente passear-se por terrenos mais pesados como «Restless» e «Fortune and Fate», e por outros impregnados de melodia e teclados como «The Violent Flame Forever» e «One». Esta dinâmica tem os seus momentos altos como «The Calm Before the Storm» e o épico a «A Matter of Time Transforming» que terão capacidade de pôr os adeptos do prog metal em polvorosa. O que menos me convenceu neste disco,   terá sido a duração do mesmo, que peca um pouco por excessiva. Não ajuda a maior dos temas em meios-tempos o que prolonga a sensação de fastio. Um bom disco apesar de tudo. 7,1/10

Thursday, May 10, 2012

THE FORESHADOWING - «SECOND WORLD»


Lembrados devem (ou deveriam) estar do espantoso segundo álbum dos italianos The Foreshadowing editado durante o ano de 2010 de seu nome, «Oionos». Aumentando os níveis de emoção, peso e intensidade, o grupo soube construír um disco de doom metal de contornos góticos como há muito não se ouvia e, ainda hoje, temas como «The Dawning», «Outsiders», «Chant of Widows» e «Fallen Reign» ecoam como belíssimas peças intemporais. «Second World» é assim o terceiro álbum da banda e demonstra algumas mudanças ainda que subtis. A primeira é que «Second World» é um disco mais vocacionado para a atmosfera que se faz acompanhar de uma história apocalíptica que tão bem os The Foreshadowing trazem à vida. Diria que «Second World» é uma banda sonora perfeita para o livro de Cormac McCarthy (e mais tarde filme) «The Road». O segundo desvio prende-se com a vontade do grupo em fugir às referências óbvias que haviam em «Days of Nothing» e «Oionos», Tiamat, Anathema, Paradise Lost e My Dying Bride. Aqui nota-se o esforço para fugir a estas conotações que inevitavelmente continuam a existir, juntando-lhes os Depeche Mode (oiçam o início de «Outcast»), e dão um inegável charme à sonoridade do grupo. Um terceiro elemento é a perca de peso comparativamente a «Oionos», talvez fruto da vertente mais atmosférica e cinematográfica que houve necessidade de imprimir em «Second World». As boas notícias é que os The Foreshadowing continuam tão intensos e brilhantes quanto antes, porque gravar temas como «Havoc», «The Forsaken Son» e «Colonies» não é simplesmente para todos. O meu maior dilema com «Second World» prendeu-se com a falta de um conjunto de temas individualmente mais fortes como existiam em «Oionos», onde todas as músicas valiam por si, até mesmo a cover de Sting. Perdeu-se este pormenor, mas ganhou-se um trabalho mais homogéneo, com uma identidade mais vincada e uma melancolia contagiante. Um enorme álbum, uma vez mais. 8,9/10

CRADLE OF FILTH - «MIDNIGHT IN THE LABYRINTH»

O que poderia levar o bom do Dani Filth a gravar temas da fase áurea dos Cradle of Filth em versão orquestral? A recente paranóia com o imaginário do Tim Burton? Uma crise de meia-idade? Eu apostaria em ambos. «Midnight in the Labyrinth» não é um disco minimamente interessante. Primeiro, porque as versões originais já possuem algumas das melhores "orquestrações" da banda e segundo, porque estas versões actuais não acrescentam absolutamente nada aos temas "metálicos". A aposta para os clássicos a trabalhar recaiu principalmente sobre os álbuns «Vempire», «Dusk...and Her Embrace» e «Cruelty and the Beast» sendo que de «The Principle of Evil Made Flesh» apenas se resgatou «Summer Dying Fast», curiosamente a música que funciona melhor. A versão de «The Rape and Ruin of Angels (Hosannas in Extremis)» também ficou relativamente cativante. No geral, porém, o interessante resume-se a uma curiosidade que não justifica a compra do disco, a menos que se seja fanático pelos Cradle of Filth. Dá pelo menos para recordar com nostalgia a época em que os Cradle of Filth eram uma das mais influentes e originais bandas da praça. 4/10

BLACK BREATH - «SENTENCED TO LIFE»

«Heavy Breathing» de 2010 tem sido referido como um dos melhores álbuns dos últimos anos, apesar do relativo anonimato com que se passearam os Black Breath nesse ano. Prova de que o que é bom, mais cedo ou mais tarde acaba por ser reconhecido. «Sentenced to Life» vem coroar os Black Breath como um dos mais promissores grupos da actualidade, com o seu crossover de fazer inveja.  E bastará «Feast of the Damned» (declaradamente Slayer) para se renderem ao veneno dos norte-americanos, ou «Endless Corpse» (directamente da mesma fornalha das primeiras bandas de death metal sueco) para vos impressionar verdadeiramente. Ou ainda o groove de «Of Flesh», saído da escola death metal norte-americana. Enfim, mais vale receitar-vos mesmo todo o disco, que está repleto de grandes malhões que trazendo para o presente a nostalgia dos clássicos, nunca passam a ser exercícios de mero revivalismo, mas antes instrumentos que os Black Breath trabalham na perfeição para construír a formidável banda que são. 8,5/10

SIX FEET UNDER - «UNDEAD»


Se a capa assumidamente retro não vos impressionar, garanto-vos que a entrada de «Frozen at the Moment of Death» o fará. «Undead» é daqueles álbuns que não perde tempo e atira-nos com uma dose de death metal pujante goela a abaixo para depois nos relembrar que isto é uma coisa feita por aquele individuo esquisito chamado Chris Barnes. O mesmo que andou a lançar discos de death metal manhoso durante anos a fio, lembrou-se agora de voltar a gravar um álbum obscuro e violento como nem «Haunted» (o primeiro álbum sob a designação Six Feet Under) foi. Contribuido para isso terá o renovar de músicos que acompanhavam Barnes e que terão injectado sangue fresco com vontade de espalhar caos e tripas pelo mundo fora. Às vezes é mesmo disto que uma banda "velha" precisa: sangue novo. Senão reparem na insana «Formaldehyde» (arrepiante prestação de Barnes), na podre «18 Days» (parece saída de uma cave cheia de corpos recém-mutilados), e na doomesca «Blood on my Hands» (balada para serial killers). Parece combinado com os Cannibal Corpse, mas a verdade é que ambos resolveram lançar os melhores álbuns da carreira em muitos anos, neste caso, é mesmo a melhor coisa que Barnes lança desde «The Bleeding». 8,3/10

CATTLE DECAPITATION - «MONOLITH OF INHUMANITY»


Death/Grind com uma mensagem verde. Vegetariana. Anti-humana. Os Cattle Decapitation são das bandas mais extremas que podemos hoje em dia encontrar, mas também das poucas no seu espectro musical, que tentam conceptualmente transmitir alguma coisa de relevante ou que pelo menos faça o ouvinte pensar. E no final de qualquer disco da banda, uma sensação é comum: a de que o Homem é um facínora. Desta vez, quiçá inspirados no bom filme «Rise of the Planet of the Apes», «Monolith of Inhumanity» trás primatas na capa e simboliza uma hipotética regressão da nossa espécie. Musicalmente o grupo continua tão extremo como antes, mas espantosamente, mais dinâmico. Com especial atenção ao trabalho vocal onde podemos encontrar todo o tipo de grunhidos possíveis e imagináveis, até um registo cantado! As músicas ganham enorme interesse com isto e com as constantes variações de ritmo que devem dar cabo de braços e pernas do baterista do grupo, David McGraw. «A Living, Breathing Piece of Defecating Meat» à cabeça. Após a audição deste disco fico com a tentação de dizer que é o melhor álbum da banda até à data, talvez um exagero, mas que é um enorme álbum, disso não tenham dúvidas. 8,4/10

DARK TRANQUILLITY - «ZERO DISTANCE»

Para atenuar a espera dos fãs, enquanto não editam o sucessor de «We Are the Void», os suecos Dark Tranquillity resolveram lançar um EP com cinco temas em que a banda apresenta-se muito fiel à sonoridade que tem vindo a desenvolver desde «Projector», altura em que tornaram o seu som mais straight forward, cimentado em melodias cativantes e refrões fáceis de cantar. Se é isto que esperam dos DT, então «Zero Distance» é certamente para vocês, se esperam alguma inovação ou algo substancialmente diferente, então mais vale equacionarem outras alternativas. «Zero Distance» serve essencialmente para mostrar aos fãs que vale a pena esperarem pelo próximo álbum de originais, que não deve tardar.  7/10

BEFORE THE DAWN - «RISE OF THE PHOENIX»

Era mais ou menos consensual que gravar um bom sucessor a «Deathstar Rising» não seria tarefa fácil e que os Before the Dawn teriam de soar as estopinhas para manter o hype vivido em seu redor. Afinal, esse grande disco, não só era (e continua a ser...) o melhor da banda, como prometia um futuro brilhante aos BtD. Será no entanto um triste exercício fazer uma review a «Rise of the Phoenix» que aumenta os décibeis e perde toda a elegância melancólica de «Deathstar Rising». As guitarras puxadas à frente numa tonalidade quente e vocais que se ficam pelo registo gritado, são as marcas de «Cross to Bear», «Pitch Black Universe» e «Fallen World», citando apenas alguns dos melhores momentos do disco, mas que se colam perigosamente aos meandros do death metal melódico de uns Scar Symmetry, In Flames e Dark Tranquillity, desvirtuando aquela personalidade tão própria que o grupo havia desenvolvido no álbum anterior. Haverá porventura quem fique agradado com esta transição, nomeadamente os fãs das bandas acima referidas, mas pelo que me toca, «Rise of the Phoenix» fica vários pontos abaixo de «Deathstar Rising». Um típico caso de banda que quer ser follower and not leader. 6/10

AT VANCE - «FACING YOUR ENEMY»


No anterior «Ride the Sky» (2009), os At Vance resolveram tirar o pé acelerador e oferecer aos fãs uma viragem ao hard n' heavy clássico, em vez do power metal que debitavam até então. Uma escolha que pela crítica geral não lhes foi abonatória, embora aqui no EH até tenha feito uma review bem positiva, opinião que, ouvindo o álbum novamente, se mantém. A banda pode ter perdido peso, mas ganhou capacidade de gravar temas memoráveis. «Facing You Enemy» remata essa ideia de forma curiosa: se o grupo optou por manter a toada heavy clássico, houve um pequeno acrescento de peso, sem que alguma vez se aproxime do power metal de outrora, mas suficiente para se afastar da sonoridade easy listening de «Ride the Sky» e fica assim perto dos territórios dos projectos Avantasia e Allen/Lande. Isto faz de «Facing Your Enemy» um disco ainda mais bem esgalhado do que o anterior. Pelo menos mais metálico e onde os dotes vocais de Rick Altzi e os solos de Olaf Lenk dão outro brilho aos At Vance. Uma excelente proposta para amantes de heavy metal clássico. 8/10

UNLEASHED - «ODALHEIM»


Seria extremamente fácil fazer uma review a «Odalheim» se nos limitassemos a descrever aquilo que os Unleashed fazem e contextualizá-lo na carreira do grupo sueco, uma vez que o death metal melódico de contornos thrash e temáticas mitológicas fez sempre parte do imaginário da banda nórdica e «Odalheim» não inova ou distancia-se o que quer que seja desse caminho. Para o bem e para o mal. Sabe sempre bem ouvir malhas como «Fimbulwinter» e «Odalheim», onde a agressividade anda de braço dado com a melodia e o esforço de soar épico. Mas na verdade já existe uma banda a fazer isto com muito mais pinta que são os Amon Amarth e embora os Unleashed até sejam uma banda mais vocacionada para o Barroselas e os Amon Amarth para o Vagos, a sonoridade de ambos pouco se distancia e normalmente o fãs de uma têm a "obrigação" de gostar da outra. Este talvez seja o melhor elogio que se pode fazer aos Unleashed de 2012. 7/10

Friday, May 04, 2012

MOONSPELL - «ALPHA NOIR / OMEGA WHITE»


Reconhecimento. Palavra chave, quando falamos no âmbito das Filosofias do Sujeito. Para Hegel o reconhecimento é "o conflito consigo próprio, o experimentar sofrimento e continuar a lutar por ser reconhecido pelos outros". Já para Ricoeur "só no total reconhecimento de si, do outro, e do outro de nós é que o individuo se potencia". Ricoeur aponta para Aristóteles e para a ideia de que a garantia da vida boa está na segurança de que o homem pode ser autor dos seus próprios actos e de julgá-los racionalmente, sendo, portanto, capaz de analisar as suas próprias vivências. Noutro vértice está ainda Hobbes que em «Leviatã», enfatizou a violência (e não a cooperação) como lugar do reconhecimento. Para todos os autores, porém, é comum a ideia de que o reconhecimento é edificante e estruturante do Homem e das sociedades e só assim se atinge uma desejável  igualdade de direitos entre culturas. Reconhecimento é também um palavra chave no heavy metal. A palavra mainstream não é mais do que o alargamento do reconhecimento de uma banda que antes estava confinada ao underground e passou a estar aberta a outros públicos, que até então, desconheciam a sua existência. Quantas vezes não falamos de reconhecimento quando uma banda, como por exemplo, os Decayed que andam "nisto" há tanto tempo e continuam a ser uma banda limitada em termos de público? É também uma palavra que define bem os Moonspell. Eles que batalharam pelo reconhecimento de não estagnarem, através de metamorfoses kafkianas de disco para disco. «Alpha Noir / Omega White» é um perfeito sinónimo desta busca pelo reconhecimento por parte dos Moonspell, só que de uma natureza diferente. Se até  ao «The Butterfly Effect», Fernando Ribeiro e companhia procuravam desafiar os ouvintes com constantes mutações, a partir de «Darkness and Hope», abraçaram a sua mitologia e desde então, tal como FR disse recentemente numa entrevista, ("somos uma banda de clichés, mas sabemos que os nosso clichés não se esgotam"), adoptaram uma postura mais conservadorista. «The Antidote» (a herança literária), «Memorial» (a nostalgia reinventada) e «Night Eternal» (o refinar dos clichés) demonstram o universo em que os Moonspell se movimentam desde 2000 e que remete para uma mitologia que a banda foi tornando mais sua com o passar dos anos. «Alpha Noir / Omega White» é mais um capítulo na saga do reconhecimento dessa mitologia moonspelliana, ao assumir e vincar duas facetas distintas. A primeira realiza a negritude que esperamos deles, com uma aproximação ao thrash metal (tão em voga nos dias que correm) que não lhes fica mal. A segunda traz a atmosfera introspectiva, por vezes, erótica, em que são os Moonspell exímios. O problema que tenho com esta divisão é precisamente a incapacidade de qualquer fã em dissociar ambos universos do todo que compreende os Moonspell. Na primeira parte faltam claramente os elementos atmosféricos que estão em «Omega White» e vice-versa, tornando a audição de ambos, individualmente, incompleta e até insatisfatória. A luta dos Moonspell pelo reconhecimento trouxe-os a uma encruzilhada: para o lado esquerdo aponta o trilho do Diabo, onde os esperam o fãs de sempre, aqueles que vão aos concertos e querem ouvir sempre a «Alma Mater»  e a «Opium». Para o lado direito, estarão à espera os fãs da «Luna» e da «Scorpion Flower» e daqueles que ouviram falar de Moonspell por causa dos projectos paralelos de FR. O reconhecimento tem destas coisas, se por um lado garante-nos a satisfação de sermos tratados como iguais, por outro lado, deixamos de lutar por um objectivo e simplesmente passamos a dar aquilo que esperam de nós. «Alpha Noir / Omega White» já não é bem um álbum de luta pelo reconhecimento, mas antes da colheita do espólio conquistado. Se podemos considerar isto um triunfo? Podemos, sim. A banda conquistou o seu lugar ao sol e agora colhe os louros. Mas também podemos considerá-lo um disco cómodo e sem ponta de espírito de luta. 7/10

Thursday, April 19, 2012

PARADISE LOST - «TRAGIC IDOL»


Quem andava a pedinchar que os Paradise Lost voltassem aos tempos áureos do «Draconian Times» pode enfim respirar de alívio, porque «Tragic Idol» é o mais perto que a banda britânica irá estar desse objectivo sem que cometa plágio de si própria. Também não é assim tão parecido, estou obviamente a exagerar, mas de facto, é impossível ouvir temas como «Solitary One» e «Fear of Impending Hell» e não pensar naquela sonoridade de guitarras usada nos álbuns «Gothic» e «Draconian Times». «Tragic Idol» ensina-nos assim que as subtilezas têm um efeito extraordinário e que os Paradise Lost souberam misturar habilmente a sonoridade do «In Requiem», largando as gorduras góticas deste e do último álbum e, acrescentado algum peso, conseguiram compôr aquele que facilmente considero o melhor álbum de Paradise Lost desde «Draconian Times». Para tal deve sem dúvida ter contribuído o projecto Vallenfyre de Greg Mackintosh, onde o guitarrista ensaiou enormes riffs death metal e decerto trouxe para este disco mais alguns,  porque «In This We Dwell», «Crucify» e «Theories from Another World» trazem os tais riffs que não enganam ninguém. O maior triunfo de «Tragic Idol» acaba por ser toda a atmosfera melancólica que paira em cada um dos temas, ambiente que os primeiros trabalhos da banda eram exímios a transmitir. Oiçam «Fear of Impending Hell» mais uma vez e deixem-se levar pela cadência do tema e vão ver onde vai para a vossa boa disposição. Têm-se falado nas influências primordiais dos Paradise Lost para este disco e as escolhas recaem normalmente para Black Sabbath e Candlemass, mas tenho lido várias vezes que os PL terão recorrido várias vezes os seus primeiros álbuns, hipóteses com que estou de acordo, mas acrescento uma banda que no meu entender mais fantasmas tem a pairar sobre as músicas de «Tragic Idol»: Type O Negative. Em «Solitary One», «Tragic Idol» e «Worth Fighting For» Nick Holmes quase chega a soar a Pete Steele. Depois do enorme «Weather Systems» dos Anathema, também os Paradise Lost suplantaram-se com este magnífico «Tragic Idol». Só faltam os My Dying Bride para termos o triunvirato britânico do doom em alta em 2012, fechando o círculo depois de 20 anos de excelente música. Façam figas. 9/10

RUNNING WILD - «SHADOWMAKER»


Das artes, aquela que menos está exposta à temporalidade é a música. Se no cinema, a tecnologia foi modificando ao longo dos anos a forma de vermos filmes, nas artes como a pintura esta evolui conforme os paradigmas intelectuais em discussão e também da mesma tecnologia. Na música, ambos paradigmas e tecnologias têm evidentemente o seu peso, mas não impedem que as temporalidades se misturem. Grupos revolucionários como Black Sabbath, Metallica, Iron Maiden, System of a Down, Neurosis, Celtic Frost e Slipknot vieram alterar a forma como ouvimos e sentimos o metal, mas tal não impede que todas coexistam na mesma linha temporal e que possam neste mesmo ano, mês ou dia, lançar um disco novo, que na verdade não será tido como ultrapassado. É verdade que existem as cópias nostálgicas (o filme «O Artista») e o revivalismo (o new thrash), mas as características especiais da música permitem a uma banda de thrash como os Slayer gravar o influente «Reign in Blood» em 1986 e sair-se amanhã mesmo com um novo álbum de thrash que não será uma cópia nostálgica (é a mesma banda) ou revivalismo (pertencem ao movimento thrash da Bay Area original). Isto só é mesmo possível na música. Isto tudo para falar numa banda mítica como são os Running Wild, banda substancialmente diferente hoje do que eram no final da década de 80. O power metal pirata deu lugar a um hard n' heavy de primeira linha em que se notam as duas coisas que me fizeram escrever a longa introdução: a vontade dos Running Wild em regressar às sonoridades que fizeram sucesso nos anos 80 num estranho revivalismo que já pautava no projecto paralelo de Rolf Kasparek, Toxic Taste, e o facto desta renúncia ao power metal que a banda personificava não ter afectado por aí além a identidade dos Running Wild. Só assim se percebe como passagens que soam a Whitesnake e Billy Idol não tenham provocado maior admiração. Apenas porque ouvindo músicas como «Piece of the Action» e «Into the Black» torna-se óbvio que os Running Wild não tinham grande interesse em perpetuar algo que já vinham fazendo há duas décadas e decidiram que mais valia fazer um álbum arriscado mas cheio de estilo, do que mais um álbum de power metal com a temática dos piratas para picar o ponto, coisa que «The Brotherhood» e «Rogues en Vogue» já tinham sido. Quem vier à procura disso tem de ficar satisfeito como «Iam Who Iam» e «Shadowmaker», porque os restantes temas são maioritariamente em tempos médios e rockeiros a condizer com o cabedal e a Harley. 8/10

JEFF LOOMIS - «PLAINS OF OBLIVION»


Com a lamentável separação dos Nevermore, os seus membros começam paulatinamente a saír da casca e a dar continuidade a projectos anteriores. E enquanto não se sabe mais nada do regresso dos Sanctuary, o primeiro é Jeff Loomis, o virtuoso guitarrista, que lança aqui o seu segundo disco a solo com convidados de renome. O primeiro é logo Marty Friedman que entra em «Mercurial», um tema bem agressivo ao jeito de «Born», onde os solos têm natural protagonismo. Tony Macalpine, Attila Voros, Chris Poland são outros guitar heroes que participam, enquanto Ihsahn e Christine Rhoades dão voz a algumas músicas (3 ao todo). «Plains of Oblivion» não tem muita história para contar, podia bem ser um próximo álbum dos Nevermore, embora no geral seja mais agressivo do que estávamos habituados a ouvir da banda norte-americana, mas o DNA; esse está lá todo. É natural que um disco maioritariamente instrumental e com incidência nos solos, seja apenas ideal para quem for apreciador deste instrumento, mas com composições top notch como são o caso da excelente «The Ultimatum», da intensa «Surrender» em que Ihsahn vem trazer uma interessante combinação de estilos e «Escape Velocity» onde vemos Jeff Loomis deixar entrar blastbeats potentes por entre melodias suaves da sua guitarra, é impossível não contraiar essa tendência. «Plains of Oblivion» é um disco ultra diverso, cheio de boas malhas, o óbvio e natural virtuosismo e muito metal. 8/10

Wednesday, April 11, 2012

KILLING JOKE - «MMXII» / THE MARS VOLTA - «NOCTOURNIQUET»

Saír da nossa zona de conforto é sempre uma experiência enriquecedora. Permite-nos ter uma visão bem diferente do mundo a que estamos habituados, como nos testamos a nós próprios em situações adversas. Aqui não se trata propriamente de uma situação adversa, pois já conheço tanto uma como outra banda, mas para o Event Horizon, ter duas reviews seguidas a bandas alternativas é também uma forma de refrescar o ambiente geral do site. E não foi por acaso que escolhi estes dois álbuns, pois tratam-se de experiências fora da zona de conforto que é o metal, equivalentes a aventuras amorosas que nos marcam para sempre. «MMXII» dos Killing Joke é daqueles que sabemos que vai ser bom antes de o pormos a tocar, mas nem as melhores expectativas podiam adivinhar que seria assim tão bom. Um desfile de grandes temas de pós-punk e industrial a começar nas mais imediatas «Fema Camp» e «Rapture», acabando nas complexas «Pole Shift» e «Trance». Sempre compostas dentro de um estranho easy listening cujas melodias se instalam automaticamente em nós, as músicas de «MMXII» têm lugar marcado no que de melhor se está a fazer e arrisco dizer, que se irá fazer, em 2012. 9/10 Os The Mars Volta dispensam apresentações. São das bandas mais originais da actualidade com uma abordagem simultaneamente vintage e avantgarde ao rock, sendo talvez o pós-rock a melhor maneira de os designar. «Noctourniquet» destaca-se um pouco dos álbuns anteriores por ser menos progressivo e mais virado para a electrónica e para o alternativo (a capa captou isso muito bem), mantendo porém toda a qualidade e pertinência do extravagante grupo. «The Whip Hand» e «Aegis» afiguram-se desde logo duas malhas irresistíveis. É também menos complexo que por exemplo «Octahedron», opta por uma abordagem mais experimental e de self-indulgement («The Malkin Jewel») e menos de impressionar o ouvinte com o carrosel emocional do «The Bedlam in Goliath». À partida parece um disco menos intenso que qualquer um dos anteriores, por dar mais visibilidade às emoções e menos à complexidade sonora, mas é pura ilusão. «Noctourniquet» é um disco imenso para os sentidos e o início de uma nova fase para os The Mars Volta. 8,5/10

JOB FOR A COWBOY - «DEMONOCRACY»

Depois de ouvir «Demonocracy» dá-me vontade de ir buscar a crítica que fiz a «Ruination» (2009) e fazer um copy/paste trocando só o nome das músicas. A banda que fez sensação em 2007 com «Genesis» e o seu deathcore, tem lentamente se libertado dos clichés desse estilo, abraçando o death metal mais tradicional, com bons resultados neste álbum em «Imperium Wolves» e «Tongueless and Bound». Mas no geral os trejeitos do deathcore ainda estão lá, fazendo dos Job for a Cowboy uma banda travestida, a pender simultaneamente para o death metal tradicional e para o som da moda. A receita deverá servir para desencantar mais alguns discos e digressões, mas desta forma será curta a vida dos JFAC. Eventualmente mais média se continuarem a gravar discos de dois em dois anos.

DRAGONFORCE - «THE POWER WITHIN»

Seria uma questão de tempo até o power metal ultra veloz dos Dragonforce entrasse em espiral descendente em termos de popularidade, mesmo que os álbuns tenham mantido um nível de qualidade quase sempre elevado. «The Power Within» não foge à regra. É certo que temas como «Give Me The Night» e «Fallen World» retenham tudo aquilo que esperamos deles, também é verdade que quando resolvem tirar o pé do acelerador conseguem escrever magníficos temas como «Cry Thunder» e «Seasons» que ficam vários furos acima daquilo que os Hammerfall têm feito nos últimos anos. Também é interessante constatar o quanto os Dragonforce conseguem fazer lembrar os saudosos Lost Horizon em «Heart of the Storm», num misto de speed/power metal com heavy metal triunfante, que até começa com um riff ao jeito dos Iron Maiden. Quem gostou dos álbuns anteriores não terá aqui muitos motivos de queixa, sendo um disco talvez menos homogéneo que os anteriores, mas também mais refrescante e menos repetitivo. 8/10

REVERENCE - «THE ASTHENIC ASCENSION»

Ver o pequeno grande furor que os franceses Reverence estão a provocar é realmente um daqueles mistérios que ninguém saberá convenientemente explicar. Nascidos no meio da efervescente cena gaulesa, os Reverence apostam num black metal místico e hipnótico, numa imagem bem trabalhada (vejam o excelente vídeo do tema «Earth») e uma atitude de banda crescida. Mas depois oiçam bem os temas de «The Asthenic Ascension». Confesso ter ouvido este disco de frente para trás e de trás para a frente e não lhe encontro metade dos elogios que lhes fazem. A originalidade é abaixo de zero, variando entre os Deathspell Omega, Twilight, Watain e Dimmu Borgir. A composição é interessante a espaços e entediante na maior parte do tempo. Os vocais são de uma banalidade atroz e, concluíndo, os momentos em que realmente soam bem é nas faixas atípicas como «Earth», «Cold Room» e «Those Who Believed». A primeira encaixaria que nem uma luva no último álbum dos Dimmu Borgir, a segunda faz lembrar uma mistura de Borknagar com Khold e a terceira remete para os Enslaved fase «Monumension». Eventualmente as bandas que invoquei para a review irão aguçar-vos a curiosidade e espero que até gostem dos Reverence. Não quero ser acusado de boicotar banda nenhuma, contudo pelo que me toca, se os Reverence chegarem a algum lado, espero que não seja com um álbum tão chatinho como este «The Asthenic Ascension». 6/10

DARKSIDE OF INNOCENCE - «XENOGENESIS»

Depois de um primeiro álbum que prestava homenagem ao black metal melódico, «Lux Omega» editado durante 2011 trouxe ao de cima uma fixação por ambientes sonoros alternativos e para ajudar à festa também não é propriamente fácil perceber onde querem os Darkside of Innocence chegar com este «Xenogenesis». A base sonora continua a ser assumidamente black metal, mas agora demonstram uma vontade de serem progressivos e técnicos quais Atheist. O efeito está longe de ser o melhor infelizmente. Notam-se ideias interessantes, nomeadamente no contraste entre sons esquizofrénicos e vocais dementes bem ao jeito do Maniac, ex-vocalista dos Mayhem em, por exemplo, «Nox Omega». Mas no geral, a sonoridade actual dos Darkside of Innocence parece-me bastante caótica e pointless, apesar da boa vontade em querer mostrar algo de original (a voz feminina em «Eros» ficou bem esgalhada por cima dos inconstantes riffs de guitarra), vontade que por si já é de louvar. Restará agora assentar a poeira e perceber efectivamente qual o melhor caminho a seguir. 6/10
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